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Memória de Elefante, António Lobo Antunes
Memória de Elefante é o primeiro livro de António Lobo Antunes a ser publicado, em 1979.
Um livro biográfico que retrata um momento de crise existencial na vida do protagonista. Um psiquiatra que enfrenta a solidão longe da mulher e das filhas, alienado entre as histórias com que se depara na vida real e as que dia após dia vê passar pelo hospital onde trabalha.
Há um caminho destrutivo que está presente em toda a narrativa, um ruir de sentimentos e emoções que se confundem com trivialidades e que dão o sentido da não existência a tudo o que passa e a evocação de memórias felizes, desde a infância à guerra em África, passando, inevitavelmente, pelo saudosismo da vida familiar perdida. É precisamente esse existir que é necessário recuperar, talvez só se conseguindo com as tarefas simples e mecânicas do dia-a-dia, como a contemplação de uma tapeçaria com tigres.
Embora tivesse muita curiosidade, demorei algum tempo até estar disposta a ler António Lobo Antunes. Sou fã das crónicas que ele escreve na VISÃO, mas já tinha ouvido muitas críticas que referiam a escrita confusa e de difícil compreensão. Esperei o tempo certo para começar a lê-lo e comecei pela primeira obra deste grande escritor português.
Agora que o li posso afirmar com toda a convicção que António Lobo Antunes é um um grande escritor. O estilo da prosa é marcadamente metafórico e é necessária uma atenção redobrada para entender o sentido exato das suas palavras no contexto da narrativa. A linguagem alterna entre a sofisticação e o grosseiro, que confere um caráter realista ao personagem desta história. As descrições são exaustivas e exasperantes, mas, por isso mesmo, de uma riqueza literária surpreendente. Não é fácil ler e entender tudo o que está escrito se nos centrarmos somente na história e não dermos o salto para a forma envolvente que a conduz no mar labiríntico das palavras.
O que é escrever bem?
Já participei em alguns cursos de escrita criativa, mas nunca ninguém me deu uma definição tão eficaz sobre a arte de escrever como António Lobo Antunes.
O vídeo faz parte de uma entrevista, da qual transcrevo a parte que me levou a tecer o comentário anterior.
"Tolstoi dizia: «um livro tem que ser eficaz», mas por narcisismo, muitas vezes, ou então para mostrar a sua técnica, é difícil resistir a uma metáfora ou uma imagem, etc., mesmo que isso prejudique a eficácia do livro. Porque a gente leva muito tempo a compreender que é o livro inteiro que tem que ser uma enorme metáfora e não ter o seu livro inteiro esmaltado de pequenas metáforas. Os primeiros livros que eu escrevi, publiquei, tão cheios de pequenas metáforas, de truques literários, etc.. É que eu queria mostrar: «reparem como eu sou inteligente, como eu sei fazer isto» e isso não é importante. O importante é que todo o livro seja uma metáfora, porque todo o grande livro é, entre outras coisas, uma reflexão profunda e constante sobre a arte de escrever."
António Lobo Antunes
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