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Alma


Não posso deixar de elogiar a representação magnífica da atriz Joana Brandão. Viva. Forte. Intensa. Uma verdadeira "Alma".
Eu fui ver esta peça à Comuna mas, para quem ousar deliciar-se com este espetáculo, vai estar em cena no próximo fim de semana no Teatro Municipal de Almada.
Como curiosidade, estreou em setembro do ano passado nos EUA e foi escrita a partir de uma obra de Tennessee Williams.

Casamento em Jogo


A peça Casamento em Jogo tem estado em exibição no Teatro da Trindade, em Lisboa, e tem deixado todos os amantes desta arte extasiados com a brilhante actuação de Cucha Carvalheiro. Rogério Samora está no outro lado deste "jogo a dois" que é o casamento. Não só pela realidade que adorna a relação conjugal entre duas pessoas, e que está tão bem representada em palco, mas ainda pela característica trágico-cómica desta encenação, não podemos deixar de assistir a esta peça de teatro. Os sentimentos lutam contra as convenções e regras sociais e, embora nobres e verdadeiros, nem sempre vencem...

Sorri

 
Smile - Charlie Chaplin in "Maria, Cavakov e tudo o mais!"

Sorri
quando a dor te torturar
e a saudade atormentar
os teus dias tristonhos, vazios.

Sorri
quando tudo terminar
quando nada mais restar
do teu mundo encantador, sorri.

Na Companhia Teatral do Chiado. Imperdível, para animar os dias cinzentos que o país atravessa.

Um Violino no Telhado


Um clássico do Teatro Musical que chega agora a Portugal pela mão de Filipe La Féria.
O original baseia-se nas histórias tradicionais de Shalom Aleichem, uma cultura judaica, que Joseph Stein e o compositor Jerry Bock transpuseram para teatro.
Trata-se de uma abordagem forte e comovente ao impacto que as mudanças sociais e políticas produzem numa pequena comunidade judaica - Anatevka. Os preconceitos e a conveniência afectam as mentalidades dos habitantes desta aldeia. Tevye, com uma excelente interpretação de José Raposo, é um pobre leiteiro, pai de cinco filhas, que vive de sonhos de fortuna e vãs esperanças de arranjar bons casamentos para as suas filhas.
Quando, em vésperas da Revolução de 1917, os vemos partir da aldeia que os viu nascer para refúgios clandestinos, somos acometidos por sentimentos de humanidade e solidariedade para com o seu destino, lembrando o que tantos outros, no passado, tiveram de enfrentar.
E lá está ele, o violinista no telhado, que com a sua melodia vai enlaçando a dureza da vida e a magia dos sonhos, num tributo à mais encantadora promessa: a esperança.

Em cena no Teatro Politeama.

O Dia dos Prodígios


A partir do romance de Lídia Jorge, adaptado para teatro e encenado por Cucha Carvalheiro, chega-nos O Dia dos Prodígios.
Esta é a história dos habitantes de Vilamaninhos, uma aldeia isolada no interior algarvio. O tempo é de guerra, a colonial, mas estas pessoas vivem à margem do tempo, revivendo o passado, presas a preconceitos e conflitos caseiros.
Envolta numa aura de magia, esta peça ganha o seu poder criativo no dia dos prodígios, o dia em que os habitantes de Vilamaninhos vêem uma serpente voar.
Esta é uma metáfora à história e mentalidade portuguesas, explorando as contradições tradicionais em que estas se estruturam.
Os tempos evoluíram e melhoraram, mas, ainda hoje, somos uma nação à procura de saída, esperando um qualquer prodígio que nos resolva a vida.

"Também eu sonho que sou uma toupeira metida num buraco, cavando, cavando. Mas oh vizinhos, quanto mais cavo menos vejo. Cego como esta noite a minar toda uma nação à procura de saída."

"Ninguém se liberta se não quiser libertar-se."

Em cena, no Teatro da Trindade, até 14 de Novembro de 2010.

Um Eléctrico Chamado Desejo



Brilhante é a forma como classifico a última encenação do Diogo Infante. Surpreendentes são as interpretações de Alexandra Lencastre, Albano Jerónimo, Lúcia Moniz e Pedro Laginha, de entre os outros actores, que também contribuem, de forma inigualável, para uma peça de teatro absolutamente arrebatadora.
A história é, de certa forma, intemporal. Revelando a nu as relações entre os homens e as mulheres, na sua simplicidade e ignorância. Por um lado, a rudeza dos modos de quem anseia muito pela vida, mas de forma crua e fria, com calculismo e desprendimento. Por outro, a fuga ao que é real, através de um inebriamento absoluto pela magia que envolve todos os acontecimentos, que não queremos rasgar com a adaga da triste e inóspita realidade.
O cenário é magnífico, criando um ritmo intenso e envolvente, quer pela gradação da luz, quer pelo movimento, quer pelos sons.
Até 31 de Outubro está em cena esta produção, que recomendo vivamente, naquela que considero uma das melhores salas de espectáculos do país: o Teatro Nacional Dona Maria II.

Solércia


Foi com Gil Vicente que aprendi a gostar de teatro, ou, melhor dizendo, que a minha alma despertou para a eloquência das formas e dos sons nesta mistura perfeita, que nos envolve num véu de sumptuosidade.

Do monólogo, ao diálogo, da quietude à acção, tudo faz parte do cenário. Uma vezes cinzento, ou quase imperceptível, outras berrante, de cores garridas, mas sempre suportado por uma aura que envolve todos os que o observam em puro deleite e arrebatadora magia.

A Quinta da Regaleira é por si só um espaço de inigualável beleza e mistério, dois ingridientes chave para uma encenação brilhante como a que o Teatro Tapafuros faz de Solércia, a partir de textos de Gil Vicente.

A noite recebe-nos na sua graça e permite-nos detectar formas misteriosas que, de outra forma, poderiam passar despercebidas. O contacto com a natureza desperta-nos os sentidos de forma alarmante, o que provoca uma ansiedade positiva na observação do desenrolar da acção. As vozes misturam-se com os sons nocturnos e os edifícios contrastam na escuridão, revelando ainda mais o seu magnífico esplendor.

Esta é a terceira peça de teatro a que assisto na Quinta da Regaleira, pela autoria do Teatro Tapafuros, é sempre uma experiência inebriante, que recomendo a todos os que amam o teatro e que não conheçam este espaço. Para os que conhecem apenas durante o dia, não percam esta oportunidade de desvendar os mistérios da noite.

Até dia 10 de Outubro, na Quinta da Regaleira. Levem calçado confortável e um agasalho.

Isabelle, Trois Caravelles et un Charlatan


Inserido no VIII Festival Internacional de Máscaras e Comediantes, no Castelo de São Jorge, chega-nos a peça de teatro Isabelle, Trois Caravelles et un Charlatan, apresentada pela companhia de teatro francesa Les Têtes de Bois.

Tive oportunidade de assistir a esta peça de teatro, uma tragicomédia, que nos transmitiu um encanto ainda mais sedutor ao ser apresentada no interior do Castelejo. A acção ganhou uma nova dimensão ao quebrar os limites do palco e espalhar-se pelo interior das muralhas que nos rodeavam. As árvores, a brisa nocturna, os sons misteriosos, envolveram-nos com uma aura de magia.

De repente, estávamos em 1516, numa Espanha fortemente agitada pela Inquisição. Um actor, acusado de heresia por ter feito uma peça de teatro, oficialmente interdita, sobre Cristóvão Colombo, tem uma nova oportunidade de a representar, tentando assim ganhar o perdão real.

A história é divertida, os diálogos são empolgantes, a música dá um toque de ligeireza e marca o ritmo, que vai passando de forma inebriante, através dos gestos explosivos e sarcásticos dos actores.

Não é todos os dias que temos oportunidade de assistir a uma peça de teatro em francês, com esta qualidade. Embora digam que a língua francesa está em desuso e confinada a uns quantos intelectuais amantes das artes, do cinema e da literatura, a plateia do Castelejo encheu-se com pessoas de várias idades, de avós a netos, para assistir a esta representação magnífica. Eu também lá estive, com um mês inteirinho de aulas de francês, a deliciar-me com esta maravilha.

A Casa de Bernarda Alba


No mês da Liberdade surge-nos uma sugestão teatral pela mão do encenador João Rosa, que pretende, assim, homenagear Federico Garcia Lorca, vítima do sistema opressor, que o conduziu à morte em 1936. O autor da peça foi brutalmente fuzilado por uma milícia nacionalista conservadora.

A Casa de Bernarda Alba, recriada no Palácio da Independência, com recurso a alguns marcos inovadores, que aproximam o público e as personagens, nomeadamente, a representação em arena e a participação do Coro Audite Nova de Lisboa, com uma extraordinária actuação.

Bernarda Alba é uma mulher rígida, determinada a impôr o seu domínio repressor e austero na educação das suas cinco filhas. Enviúva do segundo marido e ordena que em sua casa se pratique o luto, o silêncio e o isolamento. Esta é, notoriamente, a figura da ditadura antes do 25 de Abril. A filha mais nova e a mãe de Bernarda Alba insurgem-se contra as normas impostas por esta, tentanto libertar-se e alcançar a felicidade.

É estonteante a forma como vemos desenrolar-se a história e o culminar fatal de um GRITO DE LIBERDADE, que só se alcança depois da morte.

As interpretações são magníficas, dignas de merecidos aplausos. Não só por elas, mas também pelos anos de censura e opressão, somos conduzidos a um sentimento de fúria rebelde, que nos impele a sair dos nossos casulos de medo e insegurança, para um sonho que podemos tornar realidade: a libertação de tudo o que aprisiona os nossos corações.

A Cidade


A Cidade é uma metáfora à vida em comunidade. Uma representação magnífica dos textos de Aristófanes, enquadrando aspectos sociais como política, dinheiro e a educação dos jovens, entre outros.
A mim, particularmente, tocou-me de forma significativa a relação entre homens e mulheres, tão bem decifrada por esta encenação. Uma relação que nunca se conseguiu pautar por uma vivência livre de discórdia, pois o que ambos querem é uma democracia plena de direitos e responsabilidades, mas que tomam pelo poder ao invés da partilha.
O que vemos em A Cidade é uma muito bem denominada "caricatura social". Tão actual há 2500 anos atrás como hoje, o que revela de forma clara o quanto a sociedade evoluiu. O elenco é de luxo e muito bem escolhido para os vários papéis. Destaco a interpretação do Nuno Lopes, que me fascinou pela entrega e envolvência que coloca na personagem a que dá corpo e voz. Dá-lhe também alma. Valorizo-o, ainda mais, pois, no dia em que assisti a esta peça, encontrava-se de perna engessada, o que não só não depreciou a sua brilhante actuação, como a enriqueceu, mostrando que o talento está muito além dos limites físicos.

REMIX EM PESSOA


Fernando Pessoa é, para mim, o poeta mais brilhante de sempre. A sua poesia é eloquente, profunda e ao mesmo tempo sublime. São textos de uma envolvência libertadora, que nos faz sonhar com o mar de palavras tecidas pelo seu inigualável talento.
Foi com esta expectativa que ontem me dirigi ao Teatro Villaret, em Lisboa, acreditando que um espectáculo à volta de tão belos textos seria, sem dúvida, um momento a não perder. Contudo, e após uma fraca declamação por parte do humorista Jô Soares, constatei que há artes que não se misturam.
Do que vi e ouvi, apenas retive os poemas que identifiquei, os quais me fizeram estremecer com a intensidade dos sentimentos contidos nas palavras. Estas, ganharam vida e tocaram-me directamente no coração, onde guardo um dos poemas mais comoventes que li e que aqui partilho.

O MENINO DA SUA MÃE

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
— Duas, de lado a lado —,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

Fernando Pessoa