Para comemorar o Dia Mundial da Poesia, aqui fica um dos meus poemas favoritos:
Há Palavras Que Nos Beijam
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O'Neill
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Florbela
Um filme belíssimo, mesmo que seja um triste relato de uma vida curta e infeliz. Nas palavras que a eternizaram revela uma grande fragilidade, fruto do desespero que lhe tecia a alma e a corroía por dentro, até não deixar mais nada a não ser tristeza...
Saudades
Saudades! Sim... Talvez... e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!
Esquecer! Para quê?... Ah! Como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão!
Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!
E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!
Florbela Espanca
Este é um dos meus poemas preferidos, um dos que me acompanham desde a adolescência, aquela altura da vida em que tudo é mais intenso... Já o ofereci uma vez, uma única, em que senti que as saudades eram tão intensas, que ganhavam forma e abraçavam o meu amado.
Fernando Pessoa na Gulbenkian
Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Fernando Pessoa
Exposição sobre a vida e obra de Fernando Pessoa até 30 de abril na Gulbenkian.
O grande poeta português e todos a quem deu vida, através de diversas formas de escrita que revelam personalidades distintas que derivam de uma mesma alma. O poeta é um fingidor e a dor que finge é aquela que pulsa no peito de quem a lê, que se revê nela e que por ela quer expressar o que sente mas não quer ser.
Incertezas
Não sou um rochedo,
Sou forte mas não sou de pedra.
Tenho a solidez da vontade,
Mas não tenho a certeza de nada, pois tudo é incerto.
Os meus passos são seguros,
A minha força é a de um guerreiro.
Salto os obstáculos convictamente,
Mas perante o abismo vacilo na imensidão da dúvida.
Para onde vou?
Quem está a minha espera?
E quem me acompanha?
Respostas vãs, como tudo o que de bom há na vida,
Porque na hora das decisões somos sempre muito fracos,
Deixamo-nos levar pelo chão oscilante que nos suporta,
E temos quase sempre medo de viver!
Sou forte mas não sou de pedra.
Tenho a solidez da vontade,
Mas não tenho a certeza de nada, pois tudo é incerto.
Os meus passos são seguros,
A minha força é a de um guerreiro.
Salto os obstáculos convictamente,
Mas perante o abismo vacilo na imensidão da dúvida.
Para onde vou?
Quem está a minha espera?
E quem me acompanha?
Respostas vãs, como tudo o que de bom há na vida,
Porque na hora das decisões somos sempre muito fracos,
Deixamo-nos levar pelo chão oscilante que nos suporta,
E temos quase sempre medo de viver!
Outono
Gotejam folhas de árvore,
a medo.
Receiam o chão.
Pudera...
Ninguém as ampara na mão.
Ninguém as embala numa história.
Tão pouco as guardarão na memória.
Neste ocaso do ano,
as aves,
nas árvores,
são egoístas.
Não contam a ninguém os segredos
do vôo em vai-vem.
Tantas horas ali cantaram
e nem uma nota!
Só a beleza e o desdém...
Tardes douradas,
folhas secam
no chão caídas.
Ouve-se o crocante passo
de quem as pisa.
É um som vivo,
crispante,
doce e cintilante!
Com um sorriso amargo,
recebem as árvores despidas
as primeiras gotas de água cristalina.
E o odor molhado da terra
inunda os sentidos,
dos que sentem e calam
gritos mudos e perdidos...
Na promessa de um nascer,
uma semente em silêncio.
Uma doce manhã do mundo
descansa atenta.
Na dormência,
no limbo,
que antecede o adormecer,
segreda ao vento.
...e em cândido palavrear,
...e apaixonadamente...
...quem diria?
Convence-o.
Que murmúrio é este,
que se ouve na manhã desperta?
Que ruído surdo,
invade o mar de cores e formas,
que a visão perde de vista?
E entre a bruma,
que se avizinha,
o olhar atento não descuida,
sua sentinela ardente,
que se agita,
com o cair da candura.
Sopra o vento
e foge a calmaria.
Na doce tempestade
que ninguém antevia.
Sobre as ondas,
sob o céu azul,
o leme para Sul.
Depois,
na noite quente,
as estrelas reverberam
em mares de trigo e mel.
E, dois a dois,
fazem dia.
Na esperança de que
com um beijo se sele
toda esta gloriosa magia.
O rodopio,
a fúria louca,
que incendeia e queima
no peito dos amantes.
Ouve-se o canto de uma sereia
que desperta no fundo do mar…
…suave, doce, cintilante,
...a medo...
...em pequenos passos...
...ardente o desejo de amar!
E neste enredo,
nesta doce sedução,
quem resistirá a tamanha tentação?
poema escrito por mim, em coautoria, no outono de 2007
Filme do Desassossego
Um filme não comercial, denso, completo, abrangente em vários tipos de arte. Um elenco de luxo, uma interpretação magnífica de Cláudio Silva. Imperdível.
"Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.
Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.
Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha."
"Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.
Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.
Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha."
in Livro do Desassossego, Bernardo Soares (alter-ego de Fernando Pessoa)
Alegoria de uma caverna
"Deus costuma usar a solidão
Para nos ensinar sobre a convivência.
Às vezes, usa a raiva para que possamos
Compreender o infinito valor da paz.
Outras vezes usa o tédio, quando quer
nos mostrar a importância da aventura e do abandono.
Deus costuma usar o silêncio para nos ensinar
sobre a responsabilidade do que dizemos.
Às vezes usa o cansaço, para que possamos
Compreender o valor do despertar.
Outras vezes usa a doença, quando quer
Nos mostrar a importância da saúde.
Deus costuma usar o fogo,
para nos ensinar a andar sobre a água.
Às vezes, usa a terra, para que possamos
Compreender o valor do ar.
Outras vezes usa a morte, quando quer
Nos mostrar a importância da vida."
Fernando Pessoa
Muitas vezes sinto que Deus me atira para dentro de uma caverna negra, para me ensinar a amar a vida que encontro fora dela. E, quando tenho coragem de atravessar a barreira invisível, que me separa da imensidão na luz, posso contemplar, com serenidade, o mar, a natureza verdejante, o céu azul mesclado por nuvens fofas, e sorrir perante a dádiva que tenho à minha frente: tempo, para que a minha vida seja um registo feliz da minha existência plena.
Rosto. Perfil.
Um rosto é como uma janela para alma;
É uma forma de expressão viva.
Doce encanto de profusão de emoções;
Uma mostra muito pouco superficial.
É verdadeiro, intenso, como a carne que lhe dá forma.
O perfil é o esconderijo que oculta a razão,
Onde se refugia a explosão de luz e cor.
É a cadência ou a fuga ao que não se quer mostrar.
Um suave subterfúgio para a límpida chama,
Que este apaga na face em que se revela.
Poesia em Vinyl
A 11 de Março decorreu mais um Poesia em Vinyl. Desta vez, as letras do poeta Jorge Melícias cruzaram-se com a voz da cantora e compositora Joana Rios.
A poesia de Jorge Melícias é complexa, violenta, repleta de sentimentos fortes, que se tornam difíceis de interpretar. É uma associação entre beleza e violência, que ganhou alguma suavidade pela voz doce da Inês Meneses.
Ergo-me da refrega
e tomo posse sobre o excídio.
Eu vi a minha mão em tudo o que
se demaraca da piedade. E comovi-me.
Jorge Melícias, inédito
É poderosa a casa
curvada sobre a minha morte.
Atravessa o sangue,
transborda para dentro.
À porta dos dedos os insectos tecem-se,
iluminam os pulsos
nas noites em que o grito é íngreme.
Há uma luz doente sobre a mesa,
um pulmão de pedra no centro.
E eu mordo a própria boca,
enquanto as mulheres enlouquecem de pé,
cuspindo os espelhos.
Jorge Melícias, in disrupção
A voz de Joana Rios é forte, límpida e preenche-nos os sentidos numa amálgama de sensações, que despertam corações adormecidos, enchendo-os de amor.
Invictus, the poem
Falei-vos recentemente sobre um filme: Invictus. Drama sobre a vida de Nelson Mandela, entre a chegada à presidência da África do Sul e o Campeonato Mundial de Rugby de 1995.
Hoje quero falar-vos sobre o poema Invictus, de William Ernest Henley, que dá nome ao filme. Este poema foi a fonte de inspiração de Nelson Mandela durante os anos em que esteve preso.
Invictus
Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.
William Ernest Henley
Que este poema possa inspirar o desespero, a dor e a solidão de todos os que se sentem amargurados com a vida. Cada um de nós é responsável por si. O que ousarmos fazer será feito. Resta a coragem, a esperança e a fé.
Hoje quero falar-vos sobre o poema Invictus, de William Ernest Henley, que dá nome ao filme. Este poema foi a fonte de inspiração de Nelson Mandela durante os anos em que esteve preso.
Invictus
Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.
William Ernest Henley
Que este poema possa inspirar o desespero, a dor e a solidão de todos os que se sentem amargurados com a vida. Cada um de nós é responsável por si. O que ousarmos fazer será feito. Resta a coragem, a esperança e a fé.
Poesia em Vinyl
O Poesia em Vinyl é um projecto que conjuga artes como a poesia e a música num ambiente intimista, proporcionado pelo Restaurante Vinyl. A organização está a cargo da Raquel Marinho e do Luís Filipe Cristóvão e conta com o apoio da Rádio Radar. O evento tem lugar todos os meses durante um ano. A primeira sessão decorreu em Janeiro de 2010 e a última está prevista para Fevereiro de 2011, com interrupção nos meses de Julho e Agosto para férias.
Ontem estive pela primeira vez no Vinyl. O poeta convidado foi o Pedro Mexia, para ler alguns dos seus poemas esteve presente o Carlos Vaz Marques, e quem nos deu música foi o Samuel Úria.
Foi um serão muito bem passado, onde as palavras teceram uma conversa rica em temas e curiosidades.
Pedro Mexia encantou-nos com a sua análise sobre poesia, teatro e a vida de uma forma geral. Enumerou três temas centrais na sua poesia: a cidade, a memória e o amor. Escolhas intuitivas, na minha modesta opinião.
Soltei uma sonora gargalhada quando o ouvi comentar que “a nossa vida são divórcios e reuniões de condónimos”. A minha mente encheu-se de uma série de memórias visuais sobre estes dois badalados assuntos.
Surpreendeu-me quando afirmou não ser fã de escrita criativa. A escrita é criativa. Escrever é criar. Eu sou fã de escrita criativa. Fiz dois cursos e espero fazer mais.
Curiosamente, de tudo o que foi dito, o que mais me tocou foi uma frase simples, mas carregada de uma verdade dolorosa: “a cultura não nos torna mais humanos”. Pedro Mexia disse-a referindo-se aos alemães, que com músicos como Bach e filósofos como Kant, ainda assim, “meteram as pessoas no forno”. Esta observação fê-la para justificar, em parte, o seu pessimismo perante a vida. Concordo com ele, não tanto na parte do pessimismo, pois sou uma optimista assumida, mas mais pelo conformismo perante a crueldade humana. Não há livro, música ou filosofia que tornem o homem melhor a menos que ele queira sê-lo. A natureza bondosa das pessoas não é abalada por condicionantes externas que lhe sejam nefastas. Essas condicionantes são apenas uma desculpa para a desumanização.
Os Significados
Não sei como tudo começou: suponho
que havia uma figura que depois
se estilhaçou para formar um puzzle.
Mas se juntarem todas as peças
talvez não haja nenhuma figura, e então
de que origem intacta partiu tudo
o que depois se quebrou? É impossível
fazer estilhaços de estilhaços sem uma
coerência primeira, agora ausente.
Quando todas as peças se juntam
estaremos reduzidos ainda a uma peça
de uma figura maior, ou essa figura
é uma utopia pragmática, instrumental,
que permite algum sentido ?
Ó significados, para vós, na infância,
tinha um caderno.
Pedro Mexia, in "Duplo Império"
Depois das palavras faladas, vieram as cantadas pela voz harmoniosa de Samuel Úria. Da sua guitarra sairam notas graves e agudas, mais e menos ritmadas, mas todas elas envolventes.
Júlio Pomar
Júlio Pomar nasceu a 10 de Janeiro de 1926. É pintor e escultor. Foi um dos principais impulsionadores do Neo-Realismo na pintura portuguesa.
Não obstante a vida longa, marcada por períodos de guerra, censura, opressão, entre outros meios de limite à liberdade da expressão criativa, o Mestre Júlio Pomar, destacou-se desde cedo pela irreverência, pelo intervencionismo na vida sócio-política, e pelas viagens que realizou por Espanha, Paris e Brasil.
Ontem, dia 8 de Fevereiro de 2010, foi distinguido com o prémio Vida e Obra, atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) e pela RTP, numa gala emitida pela estação pública, que premiou vários artistas nacionais.
Também ontem, tive a felicidade de jantar com este grande homem, numa Homenagem ao Profissional do Ano, atribuída pelo Rotary Club de Lisboa-Estrela. Recordo o seu olhar meigo, tranquilo, de pessoa serena na idade de ouro da sua vida. Um esgar sorridente, observando com ternura as expressões corporais dos que consigo partilhavam a refeição. Quando saudámos as bandeiras (ritual protocolar típico destas reuniões de Rotary) trocou comigo um olhar e disse-me que tinha uma cara bonita, fiquei a olhar para ele, sorrindo, e quando me perguntou se as pessoas diziam que tinha fama de não se rir, respondi peremptoriamente que não. O riso vem da alma e quem expressa a sua alma de forma tão graciosa é uma pessoa que sorri e muito.
Jamais irei esquecer a mensagem com que nos presenteou no seu breve discurso: "somos sempre aprendizes".
Estação Alto dos Moinhos, graffitis em azulejo, Júlio Pomar
Camões
Bocage
Fernando Pessoa
Almada Negreiros
Não é para Contar uma Estória que tu Escreves
Não é para contar uma estória que tu escreves
e eu pinto
e eu pinto
nem para nos apontarem a dedo que limamos
o bico aos pregos no avesso do mundo, nem a terra
é o centro deste. O universo não usa
adereços de cena
nem liga a espelhos. Tem mais que fazer
que nos copiar e tão-pouco ao fado pois ele é
velho, não tem dentes, e tresanda
ao ranço de uma açorda
salgada e sem coentros.
Júlio Pomar
REMIX EM PESSOA
Fernando Pessoa é, para mim, o poeta mais brilhante de sempre. A sua poesia é eloquente, profunda e ao mesmo tempo sublime. São textos de uma envolvência libertadora, que nos faz sonhar com o mar de palavras tecidas pelo seu inigualável talento.
Foi com esta expectativa que ontem me dirigi ao Teatro Villaret, em Lisboa, acreditando que um espectáculo à volta de tão belos textos seria, sem dúvida, um momento a não perder. Contudo, e após uma fraca declamação por parte do humorista Jô Soares, constatei que há artes que não se misturam.
Do que vi e ouvi, apenas retive os poemas que identifiquei, os quais me fizeram estremecer com a intensidade dos sentimentos contidos nas palavras. Estas, ganharam vida e tocaram-me directamente no coração, onde guardo um dos poemas mais comoventes que li e que aqui partilho.
O MENINO DA SUA MÃE
No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
— Duas, de lado a lado —,
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.
Fernando Pessoa
Bright Star
Bright star, would I were stedfast as thou art--
Not in lone splendour hung aloft the night
And watching, with eternal lids apart,
Like nature's patient, sleepless Eremite,
The moving waters at their priestlike task
Of pure ablution round earth's human shores,
Or gazing on the new soft-fallen mask
Of snow upon the mountains and the moors--
No--yet still stedfast, still unchangeable,
Pillow'd upon my fair love's ripening breast,
To feel for ever its soft fall and swell,
Awake for ever in a sweet unrest,
Still, still to hear her tender-taken breath,
And so live ever--or else swoon to death.
John Keats
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