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Feira do Livro


Com as estantes pejadas de livros por ler, não faria muito sentido neste momento investir parte do orçamento familiar em livros. Ainda assim, um passeio até à Feira do Livro em Lisboa é sempre agradável e arranja-se logo uma desculpa para não deixar de o fazer. Claro que dos livros expostos acima só dois deles estavam na lista de compras, o outro surgiu por mero acaso mas não podíamos deixar de o adquirir.
Este ano a Feira do Livro está diferente, tem as mesmas barraquinhas de livros, as mesmas editoras, mas tem muitos mais espaços de comes e bebes, quase como se a par de feira do livro fosse uma feira gastronómica qualquer. Entristece-me que os livros não sejam suficientemente apelativos e precisem de ser acompanhados por uma degustação alimentar. Se fosse eu a organizar a Feira, ter-me-ia ficado pelas farturas e umas bebidas e promoveria os espaços de leitura, as palestras e os contadores de histórias, mas eu gosto de livros e gosto de ler...

O Velho que lia romances de amor, Luis Sepúlveda


Este livro é muito mais que uma história, é um manual de aprendizagem sobre os homens e os animais, que na luta pela sobrevivência não são assim tão diferentes. O velho é mesmo um velho, homem experiente, castigado pela vida, mas também por ela tornado sábio. Conhece a floresta como a palma das mãos e reconhece nela a grandiosidade da criação. O velho sabe ler, a custo, com o auxílio de uma lupa de que é inseparável. Porém, o velho não gosta de ler qualquer coisa, gosta de romances de amor e dos que causam dor, mas têm um final feliz. Com o velho aprendemos a ver a beleza do desconhecido e deixamos que o sonho nos comande.

O Amor é Fodido, Miguel Esteves Cardoso


Este é um verdadeiro ensaio sobre o amor e a forma de amar. Miguel Esteves Cardoso aborda o tema mais antigo do mundo sem pudor, sem reservas, sem moralismo e sem lamento. É o amor em cru, despido, completo, na sua verdadeira essência. E porque o amor é o tudo e o nada, resta-nos a certeza que "o amor é fodido".

A Questão Finkler, Howard Jacobson


Demorei demasiado tempo a ler este livro, o que poderia indiciar uma leitura enfadonha, pesada, e até desinteressante. Porém, "A Questão Finkler" é um livro riquíssimo em ideias, mensagens e testemunhos, que nos revelam de uma forma genérica, mas consistente, parte da cultura judaica.
O tema central desta história é a identidade ou, neste caso, a falta dela. A personagem principal do livro é Julian Treslove, um homem de meia idade, perturbado com o rumo da sua vida, que não sabe bem quem é, mas que sabe muito bem que não quer criar ligações de afecto, nomeadamente com os seus filhos. É através da sua personagem que nos embrenhamos no enredo desta narrativa, onde se vão revelando as dúvidas e os medos de Julian face às suas origens, ao que o define como ser humano, e o que pode ser o seu destino, ligado à questão do judaísmo, que tanto o fascina como o atormenta.
Este é um livro particularmente recheado de conceitos sobre a experiência de vida humana, que cada um de nós tem a oportunidade de viver e partilhar. Penso que este é o principal motivo que me fez retardar o fim da leitura, o facto de ter de absorver com calma e serenidade cada uma das tais ideias, que na pele de outro transpiram a vivência que cada um de nós oculta, por medo de materializar a própria dúvida sobre quem somos e para onde vamos.

Ensaios de Amor, Alain de Botton


Alain de Botton é um filósofo e Ensaios de Amor é um livro sobre a filosofia do amor.
O amor é um tema inesgotável. Muito já se escreveu, e continuará certamente a escrever-se, sobre o mais nobre dos sentimentos, aquele que nos leva a cometer as maiores loucuras, o que nos dá os maiores prazeres e os maiores desgostos, o mais ambíguo e contraditório de todos.
Este livro é uma reflexão profunda sobre uma história de amor, uma vulgar história de amor com um princípio, meio e fim... A abordagem do autor é realista no conteúdo e na forma e remete-nos para uma série de pensamentos conclusivos sobre as questões afectas ao coração.
O amor é um desafio exigente e tentar entende-lo é uma tarefa condenada ao fracasso. Somos seres humanos e reagimos emotivamente a tudo o que nos acontece, mesmo quando parecemos frios e distantes.
Há uma passagem no livro que diz que "o problema da felicidade é que, por ser rara, torna-se extremamente assustadora e provoca uma enorme ansiedade". Esta é uma daquelas verdades indiscutíveis, quantas vezes "enchemos a realidade de problemas só por pensarmos".
É muito comum os psicólogos dizerem para "deixar fluir". A corrente da vida não pára, está em constante movimento, e é absolutamente necessário não interromper esta dinâmica, para que as nossas vidas possam deslizar com serenidade e gratidão por tudo o que temos oportunidade de experimentar.
Tudo é passageiro, mas eu acredito que se podem construir laços eternos, com muita sabedoria e muita, mas mesmo muita, paciência.

O Grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald


Um romance belíssimo, que nos conduz ao âmago da estratificação social, da excentricidade e das aparências.
Gatsby quis ocupar o seu lugar numa sociedade exigente e cruel. Lutou afincadamente pela realização do seu sonho e foi bem sucedido, até ao momento em que se deixou levar pelos enredos do amor.
Fitzgerald presenteia-nos com uma história arrebatadora e eloquente, daquelas que nos fazem ter sentimentos contraditórios à medida que nos vamos embrenhando na narrativa.

A Música do Acaso, Paul Auster


Este foi um dos livros que me prendeu do princípio ao fim, com uma expectativa crescente sobre os sucessivos acontecimentos.
A personagem principal é um viajante solitário que encontra no volante e na música consolo para o desenraizamento de que é vítima. Deixa-se levar pelo acaso, que o conduz a destinos sombrios e malévolos. A vida é um jogo em que as apostas ditam o destino.
A leitura deste romance deixa-nos como que hipnotizados e faz-nos antever um enredo complexo, em que o desfecho será a chave desta intrigante aventura. Confesso que senti uma certa revolta à medida que ia percorrendo cada capítulo e que o fim me deixou perplexa e desiludida.
Após uma análise mais cuidada sobre o próprio autor, entendo que este é um livro sobre a frágil identidade que nos define e de como é tão volúvel a natureza humana, capaz de sucumbir aos ímpetos obsessivos e melancólicos que nos habitam.

A máquina de fazer espanhóis, valter hugo mãe



“A máquina de fazer espanhóis” de valter hugo mãe é um livro que nos faz viajar no tempo, invocando memórias dos nossos avós e todas as expectativas que temos em relação ao fim dos nossos dias, numa velhice de decadência e resignação.
A velhice é pois o tema central desta história, que está repleta de memórias passadas felizes e menos felizes, algumas até traumáticas, que aprisionam a vida destas personagens, que escasseia a cada dia que passa. Muitas destas memórias vêm ainda do regime autoritário de Salazar e do medo com que todos viveram as suas vidas na época. Tantos anos passados e é agora, no fim do caminho, que os fantasmas da cobardia descem à terra para atormentar as pobres almas que anseiam por um lugar no presumível céu.
A relação do homem com Deus ocupa também o centro dos pensamentos e das conversas no lar onde se desenrola toda a trama. Mais do que colocar em causa a existência divina, o que realmente importa para as almas aflitas é saber o destino que lhes está reservado. Morrer pode ser assustador se tivermos como única certeza que é isto, acabou, não há mais nada. Levamos tudo para debaixo da terra, não as casas, os carros, as roupas, as joias, mas a vergonha dos nossos gestos menos nobres, das nossas faltas, das nossas culpas, que carregamos amargamente ao longo de toda a vida e que, não sendo capazes de obter absolvição externa, levaremos ainda connosco para toda a eternidade, com a memória cruel que não soubemos dignificar esta vida com uma existência plena e feliz.
A velhice é o fim da linha, onde glorificamos e lamentamos tudo o que foi feito ou ficou por fazer. Passamos anos a fio a perder tempo com coisas menores e quando já não há tempo só nos resta aceitar as encruzilhadas que nos guiaram até ao derradeiro destino. É na velhice que sentimos que já não há mais nada por onde correr, este é o tempo de parar, refletir e contemplar.

Um Homem: Klaus Klump, Gonçalo M. Tavares


"Um Homem: Klaus Klump" é o primeiro livro da tetralogia "O Reino". Quatro livros de capa preta cujo tema central é o mal.
Este livro conta a história de uma guerra que devasta o mundo interior e exterior de cada homem. As guerras mutilam os membros e os sentimentos, impõem os seus caprichos, violam a integridade de cada ser, e nunca acabam sem deixar um rasto de dor e amargura.
A família Klump é abastada e na guerra essa é uma condição que tem influência sobre a ordem natural dos acontecimentos. No entanto, Klaus é um homem que sente a guerra tal como ela é, um manto negro que cobre o alvo da sua invasão. A guerra manifesta-se pela imposição de uma outra música, a do estrangeiro que se apropria da nova terra. O som é também uma arma poderosa, o som das balas, que se repete de forma exacta. "O que mais assustava Klaus era esse modo infalível de cópia. O facto de uma arma conseguir, nas mesmas condições, repetir exactamente o som em duas balas. Era essa possibilidade que o assustava e o fazia temer essa terceira linguagem, mais do que as outras. Porque a possibilidade de cópia exacta, de repetição perfeita, era uma suspensão evidente do tempo habitual, do tempo que os humanos e a natureza conhecem: o tempo que avança, que muda, que altera as coisas."
Quando tudo acaba, quando o som das balas cessa, teme-se esta nova realidade. Os que souberam fazer parte da engrenagem desta máquina destruidora libertam-se dos destroços e partem à conquista de novas alianças. O mundo está permanentemente em mutação, é fundamental sentir-lhe o pulso e adaptar o seu ritmo.

A Tia Julia e o Escrevedor, Mario Vargas Llosa


Mario Vargas Llosa foi laureado com o Nobel da Literatura em 2010. "A Tia Julia e o Escrevedor" é o primeiro livro que leio deste grande autor. Foi um começo tão bom que fiquei com vontade de ler muitos mais.

Vargas Llosa apresenta em "A Tia Julia e o Escrevedor" um retrato autobiográfico da sua própria vida, mas enriquece-o com a história de Pedro Camacho, o autor das radionovelas fantásticas que encantam o público e deliciam os leitores. Um viciado em trabalho, que acaba por enlouquecer no meio do turbilhão de personagens que inventa. Mario, a personagem principal e um admirador de Pedro Camacho, é um jovem aspirante a escritor, que se enamora da tia Julia contra a vontade da família.

Esta mistura entre o real e o fantástico, com o Peru como palco desta encruzilhada, enfeitiçou-me e fez-me descobrir um autor admirável em estilo e em riqueza de conteúdo. A história e o autor fundem-se com inteligência e remetem a imaginação para um cenário onde tudo é possível, bastando a coragem de estar vivo e viver plenamente, seguindo os sonhos por mais absurdos ou inatingíveis que estes possam parecer.

Feira do Livro


A 82ª Feira do Livro de Lisboa está a decorrer no Parque Eduardo VII até ao próximo dia 13 de maio.

Este ano já lá fui duas vezes, saborear a sensação de plenitude que tenho ao passear entre os livros, bem como dar alimento à minha fome literária.

A primeira, motivada pela oportunidade de poder estar a conversar, num ambiente como este, com a minha escritora preferida, a Raquel Ochoa, que tanto me tem inspirado e motivado para ler e escrever sempre mais e melhor. Não me livrei de uma valente chuvada, das que têm feito lembrar o velho provérbio "em abril, águas mil"... Claro que não resisti à tentação de comprar um livro, mas comprei apenas "A Questão Finkler" do Howard Jacobson e um áudio livro de meditações da Louise L. Hay, que me tem ajudado a relaxar de forma muito eficaz. Já no fim do passeio, ainda comi uma fartura, que me soube lindamente, porque nem só de livros vive o homem!

Voltei à Feira noutro dia, para aproveitar a promoção "livro do dia", que faz com que certos livros, em determinados dias, tenham um preço muito convidativo. Desta vez, comprei um livro de culinária do Jamie Oliver para oferecer à minha mãe e agora ando a deliciar-me com as novas receitas que ela anda a cozinhar.

Entretanto, fiquei a pensar no facto de não ter aproveitado a Feira para comprar mais livros, mas a verdade é que atualmente existem livros bons e baratos disponíveis durante todo o ano, nomeadamente na Fnac ou na Amazon. Sendo eu uma ávida leitora, não consigo esperar um ano inteiro para adquirir novos livros, para além do tempo disponível para a leitura ser cada vez mais escasso, o que faz com que tenha mais livros na estante do que tempo para os ler...

Paris é uma festa, Ernest Hemingway


"Paris é uma festa" de Ernest Hemingway é um relato da vida dos artistas em Paris na segunda década do século XX, quando o autor viveu nesta cidade.
Hemingway dá-nos a conhecer uma cidade onde os sonhos se podem tornar realidade, desde que haja dinheiro e se conheçam pessoas influentes no meio em que se quer vingar.
Para os jovens artistas não é fácil fazer fortuna e vão tentando a sua sorte com pequenos passos na arte que dominam, seja ela a literatura ou a pintura, apenas para mencionar dois exemplos.
A vida social e a cultura são muito importantes e muitas vezes estão acima das dificuldades financeiras, pois é preferível deixar de comer ou comprar roupa para ter dinheiro para comprar livros e quadros. Contudo, ainda assim, quase ninguém abdica de sair de casa para passar a manhã ou a tarde inteira num café, ou almoçar ou jantar num dos muitos e variados restaurantes, pois estes são também locais privilegiados de encontro entre os artistas.
Cada artista tem o seu local predileto para a produção intelectual. O próprio Hemingway refugiava-se muitas vezes num café de Paris e, entre as folhas e uma bebida, deixava que a sua imaginação pintasse de negro as letras que enchiam a brancura do papel em que escrevia os seus contos.
Paris é culta, é bela, é um contraste entre riqueza e pobreza. Paris é uma reunião de talentos. Paris é uma festa.

Livros gratuitos para download


Aos poucos vou-me atualizando no que concerne à evolução tecnológica. Tenho trocado as folhas de papel e os lápis pelo computador portátil para escrever textos, apontamentos e listas. Já não escrevo cartas, apenas e-mails, mas ainda mantenho a minha agenda Moleskine, pois não me consigo familiarizar nem com a do telemóvel. Contudo, dei um passo radical ao adquirir, no fim do ano passado, um Kindle, que é um leitor de livros digitais desenvolvido pela Amazon. O Kindle é muito leve e fácil de manusear. O ecrã não tem brilho e é muito semelhante a uma folha de papel, com a vantagem de podermos ajustar o tamanho da letra e ainda sublinhar sem danificar. Como os livros estão cada vez mais caros e como quero dar uso ao meu Kindle, resolvi procurar livros que estivessem disponíveis para download, de forma gratuita e legal. Foi dessa forma que descobri um portal brasileiro (que nestas coisas os brasileiros estão sempre à nossa frente) onde existem livros disponíveis para download e que reúnem as condições referidas em cima.

O direito de autor caduca 70 anos após a morte do criador intelectual e é neste contexto que surge o portal Domínio Público, propriedade do governo brasileiro, que é uma biblioteca digital com mais de 2000 livros de diversos autores, entre os quais: Franz Kafka, Eça de Queirós, Júlio Dinis, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Florbela Espanca, Fernando Pessoa, Gil Vicente e muito outros. Prosa, poesia e teatro para todos os gostos! Eu já fiz a minha seleção!

Comer, Orar, Amar, Elizabeth Gilbert


O livro Comer, Orar, Amar conta a história de uma mulher que decidiu viajar durante um ano numa autodescoberta do prazer, devoção e equilíbrio. Os locais de eleição para esta aventura foram, respetivamente, Itália, Índia e Indonésia.

Liz é uma mulher jovem, bonita, inteligente, com uma carreira bem sucedida, mas que procura um significado maior para a sua vida e que sente que a relação amorosa que tem já não lhe serve, pois arrasta-a para uma infelicidade profunda.

Reconhecer a infelicidade é o primeiro passo na jornada para a felicidade. Em primeiro lugar, é preciso recuperar a autoestima que sai fortemente abalada quando uma relação termina, depois é necessário redescobrir o prazer, que para Liz está associado à boa comida e à língua cantante que é o italiano. Em segundo lugar, é fundamental libertar a mágoa que ficou, aceitando e envolvendo em amor tudo o que provocou a dor que nos trouxe a este estado de perturbação e ansiedade. O melhor caminho para atingir este fim é o yoga, a meditação e a oração. Por fim, é fundamental restabelecer o equilíbrio entre prazer e devoção, restituindo-nos à vida com alegria, amor, mas sobretudo reencontrando a paz e serenidade que nos permitem enfrentar os desafios diários com segurança e sabedoria.

É este o caminho que Liz percorre durante um ano da sua vida, em que deixa todo o conforto para trás, mas também os padrões de amargura e tristeza em que se embrenhara. São 108 contas de um japa mala que ela resolve envergar com coragem e determinação.
Há dias mais penosos, há momentos devastadores, há o medo e a dúvida sempre presentes. Há uma vontade mordaz de reatar contacto com aqueles que nos fizeram sofrer, para de certa forma nos mantermos presos ao passado. Uma jornada de autodescoberta pode ser assustadora, mas a recompensa é grande para os que ousam empreendê-la.

Este livro relata uma história real, que se identifica com todos os casos de separação que conheço. Uma das mensagens que tem presente é o facto de a vida estar sempre centrada nas relações humanas. Com tantas catástrofes que existem e a miséria e a fome que estas provocam, a luta pelos direitos humanos que são negligenciados em tantas partes do mundo, é surpreendente que a nossa preocupação mais premente, aquilo que nos provoca maior sofrimento, seja as relações humanas, principalmente, as amorosas. São elas que nos fazem cometer as maiores loucuras e atrocidades, que nos fazem mover montanhas, para mendigar o amor que muitas vezes não sentimos por nós próprios. Não vale a pena lutar por e contra os outros, não vale a pena ter ciúmes, se não respeitamos e amamos o ser que habita dentro de nós, que é aquele com quem nascemos e morremos e com quem temos de viver cada sopro, cada suspiro da nossa existência.


"(...)o melhor que podemos fazer em resposta ao nosso mundo incompreensível e perigoso é tentar manter o equilíbrio interiormente - por mais insanidade que exista à nossa volta." in Comer, Orar, Amar

P.S. - O filme baseado no livro é muito bom, não tão profundo, mas bom.

Memória de Elefante, António Lobo Antunes

 
Memória de Elefante é o primeiro livro de António Lobo Antunes a ser publicado, em 1979.
Um livro biográfico que retrata um momento de crise existencial na vida do protagonista. Um psiquiatra que enfrenta a solidão longe da mulher e das filhas, alienado entre as histórias com que se depara na vida real e as que dia após dia vê passar pelo hospital onde trabalha.

Há um caminho destrutivo que está presente em toda a narrativa, um ruir de sentimentos e emoções que se confundem com trivialidades e que dão o sentido da não existência a tudo o que passa e a evocação de memórias felizes, desde a infância à guerra em África, passando, inevitavelmente, pelo saudosismo da vida familiar perdida. É precisamente esse existir que é necessário recuperar, talvez só se conseguindo com as tarefas simples e mecânicas do dia-a-dia, como a contemplação de uma tapeçaria com tigres.

Embora tivesse muita curiosidade, demorei algum tempo até estar disposta a ler António Lobo Antunes. Sou fã das crónicas que ele escreve na VISÃO, mas já tinha ouvido muitas críticas que referiam a escrita confusa e de difícil compreensão. Esperei o tempo certo para começar a lê-lo e comecei pela primeira obra deste grande escritor português.

Agora que o li posso afirmar com toda a convicção que António Lobo Antunes é um um grande escritor. O estilo da prosa é marcadamente metafórico e é necessária uma atenção redobrada para entender o sentido exato das suas palavras no contexto da narrativa. A linguagem alterna entre a sofisticação e o grosseiro, que confere um caráter realista ao personagem desta história. As descrições são exaustivas e exasperantes, mas, por isso mesmo, de uma riqueza literária surpreendente. Não é fácil ler e entender tudo o que está escrito se nos centrarmos somente na história e não dermos o salto para a forma envolvente que a conduz no mar labiríntico das palavras.

O Palácio da Lua, Paul Auster


O Palácio da Lua, de Paul Auster, narra a história de um jovem sem ambições, nem objectivos, que vê o declínio da sua existência atingir um estado absolutamente deplorável. As origens familiares marcam o carácter desta personagem de forma inequívoca. A figura paterna é uma incógnita nesta equação e representa, mais tarde, um virar decisivo no rumo da história.
No auge da decadência, Fogg é resgatado pelo amor da jovem Kitty, que lhe transmite alento para viver e um sentido para tudo o que o rodeia. Porém, é a relação profissional que o liga ao velho Effing que constituirá uma peça fundamental para completar o puzzle da vida de Fogg.
É uma narrativa empolgante, marcada pela caracterização das personagens que nela vão surgindo. Um relato profundo das relações familiares e da importância que estas têm na definição da personalidade de cada indivíduo.
Uma referência constante é a lua. Uma bola enigmática que paira sobre as nossas cabeças e onde estão guardados grande parte dos sonhos do homem.

O Riso de Deus, António Alçada Baptista


Um relato inspirador, que nos conduz à busca profunda do interior do ser, através de uma personagem - o Francisco. Homem que tem a possibilidade, vedada à maioria dos homens, de poder libertar-se de uma vida de trabalho diário em prol do bem estar comum, para se dedicar ao conhecimento da sua própria vida. Livre, viajado, porém insatisfeito com a sua busca incessante. Fica a lembrança de todos aqueles com quem se cruzou e que afectaram a sua vida positivamente. O amor das mulheres, que o faz adensar a sua procura e o liga ao divino, numa forma de entrega incondicional e desinteressada. "Amar é uma atitude de compreender e aceitar: é reconhecer os outros e respeitar a sua liberdade." Não se arrepende do caminho que escolheu percorrer, mas sente-se, e fazem-no sentir, fora deste mundo de conveniências, regras e preconceitos. O seu mote e lema de vida é a busca do ser e a única coisa que o liga à realidade, e sobretudo às pessoas, são os afectos. Um homem que tem a sua fé, cheia de incertezas, e que a alimenta com as experiências que vai adquirindo na sua jornada. "A fé é um claro-escuro que se alimenta das dúvidas, das hesitações, das crises e que é inacessível aos argumentos da razão." Tudo isto está presente no livro de António Alçada Baptista - O Riso de Deus.

Feira do Livro


A 81ª Feira do Livro de Lisboa decorre no Parque Eduardo VII até ao próximo dia 15 de Maio. Um lugar de culto para todos os amantes dos livros. Este ano consegui trazer "apenas" nove livros, que vieram enriquecer as estantes já pesadas das muitas páginas que li ou tenho por ler.

A minha selecção:

O Bom Inverno, João Tordo
Sôbolos Rios Que Vão, António Lobo Antunes
Jerusalém, Gonçalo M. Tavares
Uma Viagem à Índia, Gonçalo M. Tavares
As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia, Miguel Real
A Música do Acaso, Paul Auster
As Loucuras de Brooklyn, Paul Auster
Kafka à Beira-Mar, Haruki Murakami
CHE - Ernesto Guevara, uma lenda do século, Pierre Kalfon

Os livros são um investimento que vale a pena, porque estão associados ao prazer de ler, que é único e insubstituível. É um alimento para a alma, porque nos transmite conhecimento e inspiração.

No teu deserto, Miguel Sousa Tavares

 
No teu deserto, de Miguel Sousa Tavares, não é uma história literária, nem a escrita que a define é elaborada ou eloquente, mas é bonita, de uma beleza simples, que nos deixa a pensar nos muitos encontros e desencontros de que é feita a nossa vida.
Gostei particularmente de algumas passagens que transcrevo de seguida.

"Nada tem uma solução definitiva e não há nada que não tenha algum tipo de solução provisória. É um pouco como dizem da vida os que sabem viver, adaptando-se."

"Tudo o que se diz de desnecessário é estúpido, é um sinal destes tempos estúpidos em que falamos mais do que entendemos."

"A terra pertence ao dono, mas a paisagem pertence a quem sabe olhar."

"Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer."

Há uma passagem, já quase no final do livro, que me deixou a pensar nos tempos que vivemos. Tempos estes em que queremos chegar a todo o lado apressadamente e não nos pertimos parar um só segundo para apenas contemplar. Hoje as pessoas já não se encontram, contactam-se, porque essa é a forma mais rápida de manter as relações que julgam criar, através de telefonemas, emails e das famosas redes sociais, onde se expõem sem qualquer tipo de pudor, não dando mais lugar à descoberta. Hoje as pessoas já não vão ao deserto, porque não há lá nada. Vão em manada para onde todos os outros vão, porque querem encher os seus diários de registos mirabolantes do muito que vêm, mas esquecem-se que estão a perder o essencial: o sentir.