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Alegoria de uma caverna


"Deus costuma usar a solidão
Para nos ensinar sobre a convivência.
Às vezes, usa a raiva para que possamos
Compreender o infinito valor da paz.
Outras vezes usa o tédio, quando quer
nos mostrar a importância da aventura e do abandono.
Deus costuma usar o silêncio para nos ensinar
sobre a responsabilidade do que dizemos.
Às vezes usa o cansaço, para que possamos
Compreender o valor do despertar.
Outras vezes usa a doença, quando quer
Nos mostrar a importância da saúde.
Deus costuma usar o fogo,
para nos ensinar a andar sobre a água.
Às vezes, usa a terra, para que possamos
Compreender o valor do ar.
Outras vezes usa a morte, quando quer
Nos mostrar a importância da vida."

Fernando Pessoa


Muitas vezes sinto que Deus me atira para dentro de uma caverna negra, para me ensinar a amar a vida que encontro fora dela. E, quando tenho coragem de atravessar a barreira invisível, que me separa da imensidão na luz, posso contemplar, com serenidade, o mar, a natureza verdejante, o céu azul mesclado por nuvens fofas, e sorrir perante a dádiva que tenho à minha frente: tempo, para que a minha vida seja um registo feliz da minha existência plena.

The Road


The Road, de John Hillcoat, é um filme intenso sobre a luta pela sobrevivência. À partida, poderia prever-se mais uma história banal sobre o tão especulativo Apocalipse. No entanto, este drama, baseado no romance de Cormac McCarthy, com o mesmo nome, é uma dissertação profunda e envolvente sobre a vida humana levada aos limites extremos da aceitação.

Trata-se de uma narrativa densa sobre uma América devastada por um cataclismo, que provoca a erradicação de milhares de pessoas, através de incêndios, inundações e outros fenómenos que limitam a sobrevivência humana. A catástrofe conduz a condições de vida deploráveis, culminando na fome e em comportamentos que esta alimenta, nomeadamente, a fraqueza física e psicológica e actos mais irracionais como o canibalismo.

Neste cenário mortífero, surge uma réstia de esperança lavrada pela caminhada perseverante de um pai e do seu filho, que procuram resistir, apesar de todas as contrariedades. Muitos foram os que desesperaram e puseram termo às suas vidas, para evitar o sofrimento que esta situação lhes causava. A estrada da vida é um lugar comum onde permanecem os mais nobres sentimentos: o amor do pai pelo filho, um exemplo de coragem, a esperança e a luta pela sobrevivência.

A principal mensagem desta história reside, precisamente, na esperança. Aconteça o que acontecer, temos de nos agarrar ao dom da vida e preenchê-la com acções nobres, principalmente, aquelas que nos fazem caminhar confiantes no futuro, para que, no dia que cheguemos ao fim da estrada, possamos ter a sensação que as curvas, que aumentaram a distância, e as pedras, em que tropeçámos, apenas prolongaram a magnitude da nossa feliz existência.