Estar preso é sinónimo de não ter liberdade. É ser o próprio nas mãos doutro, que não o vê por dentro, mas que o observa em cativeiro. Um outro a quem basta olhar para as suas penas macias, o seu bico possante, o olhar reluzente, mas que não sente a tristeza desta alma que só se encontra na escuridão. O cativo a quem as grades oprimem o sonhar longínquo e de cujo ser brota a lamúria incessante, num canto deprimente que o leigo denomina de alegre chilrear.
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A Casa de Bernarda Alba
No mês da Liberdade surge-nos uma sugestão teatral pela mão do encenador João Rosa, que pretende, assim, homenagear Federico Garcia Lorca, vítima do sistema opressor, que o conduziu à morte em 1936. O autor da peça foi brutalmente fuzilado por uma milícia nacionalista conservadora.
A Casa de Bernarda Alba, recriada no Palácio da Independência, com recurso a alguns marcos inovadores, que aproximam o público e as personagens, nomeadamente, a representação em arena e a participação do Coro Audite Nova de Lisboa, com uma extraordinária actuação.
Bernarda Alba é uma mulher rígida, determinada a impôr o seu domínio repressor e austero na educação das suas cinco filhas. Enviúva do segundo marido e ordena que em sua casa se pratique o luto, o silêncio e o isolamento. Esta é, notoriamente, a figura da ditadura antes do 25 de Abril. A filha mais nova e a mãe de Bernarda Alba insurgem-se contra as normas impostas por esta, tentanto libertar-se e alcançar a felicidade.
É estonteante a forma como vemos desenrolar-se a história e o culminar fatal de um GRITO DE LIBERDADE, que só se alcança depois da morte.
As interpretações são magníficas, dignas de merecidos aplausos. Não só por elas, mas também pelos anos de censura e opressão, somos conduzidos a um sentimento de fúria rebelde, que nos impele a sair dos nossos casulos de medo e insegurança, para um sonho que podemos tornar realidade: a libertação de tudo o que aprisiona os nossos corações.
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