Vida Tranquila, Marguerite Duras



Marguerite Duras é genial na sua escrita. Invade-nos com um mar de emoções que se prendem a nós com uma intensidade avassaladora. Ao ler Vida Tranquila, um relato surrealista sobre a forma como o destino de várias pessoas se pode desencadear através dos pensamentos de uma única, que os elabora ingenuamente, que deles tece a trama e com despudor observa o fruto da sua sementeira, dei por mim presa a um conflito interior sobre o que é e o que poderá apenas ser, se o projectarmos, se o esperarmos, se em nossos pensamentos antevirmos o resultado.

A vida é tranquila? A vida será tranquila? Estas são perguntas a que cada um de nós deverá saber responder quando sairmos do nosso ser e nos observarmos na imensidão dos nossos desejos, na profundidade dos nossos pensamentos. No entanto, é quando voltamos a nós, quando vestimos a nossa pele e nos reencontramos com o que somos, que podemos reflectir e contemplar sobre o que é sermos nós. Aí sim, podemos afirmar que: a vida é tranquila!

Talvez o surrealismo não seja apenas o estilo com que identifico a escritora, a vida é um pouco assim, quase sempre, uma fuga à realidade que não ousamos enfrentar, umas vezes por medo, outras por preguiça e, muitas, demasiadas vezes, por ignorância.

Vida Tranquila é um livro que nos fala sobre a Vida, mas também sobre a Morte, que não é mais que o contrário da primeira, que lhe dá origem, o seu começo e o seu fim. Viver e morrer, dois pólos opostos que se alimentam continuamente, que percorrem um mesmo eixo em sentidos contrários. A Morte também é uma forma de Vida, a que muitos recorrem por cobardia, por inércia da própria vontade.

A minha Vida Tranquila é caminhar com os pés descalços sobre a areia molhada, sentir a espuma do mar, que embate na linha de rebentação, rodear-me os tornozelos e salpicar-me as pernas com gotas azuis e frescas. A maresia e o sol brilhante turvam-me a visão, fecho os olhos, abro os braços e caminho apenas com o vento quente que me varre a face, que me despenteia os cabelos soltos, num rodopio alegre e colorido. Sinto-me leve, radiosa, viva! E, ao abrir de novo os olhos e ver, como pela primeira vez, o sol, o mar e a areia, um cenário perfeito onde vou repousar, nada mais posso esperar do que a minha Vida Tranquila.

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