Prender o amor num cadeado?
No último Outono estive naquela que é considerada a cidade mais romântica do mundo: Paris. Acho que os locais são tão ou mais românticos dependendo das emoções que neles vivemos. Lembro-me de ter visto, há uns anos atrás, uma peça de teatro inspirada no filme "Before Sunrise", em que a frase "Lisboa existe porque nós a inventamos quando pensamos um no outro" podia aplicar-se a qualquer lugar no mundo, que seja especial para duas pessoas que nele se encontraram, onde viveram momentos especiais, e que hoje os faz recordá-los. No entanto, concordo que há locais propícios ao romance e uma cidade cheia de luz, atravessada por um rio, onde se respira história, cultura e se pode saborear doçarias apetitosas, é um bom exemplo disso.
Foi também em Paris que descobri algo curioso sobre o amor. Ao atravessar uma das muitas pontes que ligam as duas margens do Sena, constatei, com um misto de surpresa e incompreensão, que os gradeamentos, que percorriam a ponte, estavam repletos de cadeados! Cadeados de todos os tamanhos e feitios. A primeira vez que os vi confesso que não lhes prestei grande atenção, pois estava certamente apressada para chegar a tempo de ver uma das muitas exposições com que me deliciei no decorrer desta viagem. Porém, numa segunda passagem, a curiosidade foi mais forte e acabei por questionar uma das pessoas que por ali deambulavam. Foi com uma certa estupefacção que obtive a revelação que os cadeados são ali colocados pelos namorados que, desta forma, procuram selar o seu amor. Ao aproximar-me verifiquei que muitos tinham corações, ou as letras iniciais dos nomes dos casais que os prenderam a estas grades. A pessoa que me revelou esta prática, absolutamente inacreditável, contou-me, ainda, que todos os anos a Câmara Municipal retira todos os cadeados que ali vão sendo colocados ao longo dos meses, não por uma questão de limpeza, ordem, ou por querer romper os elos desta forma criados, mas porque estes implicam um peso extra para as próprias pontes.
Dei por mim a pensar neste gesto tão simples, tão mundano, que aprisiona o amor num pedaço de metal, que depois acaba por ser destruído por mãos alheias. Tenho a certeza que a simbologia não acaba com a quebra deste elo, mas não posso deixar de analisar a forma como as pessoas pensam que as coisas que cativam de forma objectiva e que podem traduzir num acto simbólico, por meio de recursos mundanos, revestem a forma do amor, que se prende no exterior.
Penso que o amor tem várias formas de se manifestar e que cada um o sente de forma diferente, mas o amor puro, verdadeiro e eterno é aquele que está cativo no coração e não num cadeado, é aquele que pula no peito, que arrebata emoções desenfreadas e que é livre para sentir, viver, amar.
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