Outono


Gotejam folhas de árvore,
a medo.
Receiam o chão.
Pudera...
Ninguém as ampara na mão.
Ninguém as embala numa história.
Tão pouco as guardarão na memória.

Neste ocaso do ano,
as aves,
nas árvores,
são egoístas.
Não contam a ninguém os segredos
do vôo em vai-vem.
Tantas horas ali cantaram
e nem uma nota!
Só a beleza e o desdém...

Tardes douradas,
folhas secam
no chão caídas.
Ouve-se o crocante passo
de quem as pisa.
É um som vivo,
crispante,
doce e cintilante!

Com um sorriso amargo,
recebem as árvores despidas
as primeiras gotas de água cristalina.
E o odor molhado da terra
inunda os sentidos,
dos que sentem e calam
gritos mudos e perdidos...

Na promessa de um nascer,
uma semente em silêncio.
Uma doce manhã do mundo
descansa atenta.

Na dormência,
no limbo,
que antecede o adormecer,
segreda ao vento.

...e em cândido palavrear,
...e apaixonadamente...
...quem diria?

Convence-o.

Que murmúrio é este,
que se ouve na manhã desperta?
Que ruído surdo,
invade o mar de cores e formas,
que a visão perde de vista?

E entre a bruma,
que se avizinha,
o olhar atento não descuida,
sua sentinela ardente,
que se agita,
com o cair da candura.

Sopra o vento
e foge a calmaria.
Na doce tempestade
que ninguém antevia.

Sobre as ondas,
sob o céu azul,
o leme para Sul.

Depois,
na noite quente,
as estrelas reverberam
em mares de trigo e mel.

E, dois a dois,
fazem dia.
Na esperança de que
com um beijo se sele
toda esta gloriosa magia.

O rodopio,
a fúria louca,
que incendeia e queima
no peito dos amantes.

Ouve-se o canto de uma sereia
que desperta no fundo do mar…

…suave, doce, cintilante,
...a medo...
...em pequenos passos...
...ardente o desejo de amar!

E neste enredo,
nesta doce sedução,
quem resistirá a tamanha tentação?


poema escrito por mim, em coautoria, no outono de 2007

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