KYNODONTAS
O filme Kynodontas, de Yorgos Lanthimos, é um verdadeiro murro no estômago. Vencedor do Festival de Cannes em 2009, com o Prémio Un Certain Regard. Um poderoso e sádico relato do isolamento decretado pelos pais a três jovens irmãos. Fechados numa enorme casa, com piscina e jardim, aprendem a ler e escrever e a viver num mundo privado do contacto com outros seres humanos, com outros seres vivos e com a realidade de uma forma geral.
O autor da clausura é o pai, o único que tem contacto com o exterior. A mãe e os três filhos vivem neste cativeiro absurdo. Numa tentativa ridícula de lhes preservar a inocência, os pais ensinam aos filhos conceitos errados, como por exemplo, o mar ser, nesta realidade forjada, uma cadeira! A ideia é limitar o seu conhecimento ao que existe dentro dos limites que podem ver. Os filmes a que assistem na televisão são produto caseiro de imagens suas gravadas em diversas ocasiões. No gira discos ouvem a música Fly me to the Moon, de Frank Sinatra, como se este fosse o avô, que lhes tinha deixado uma mensagem, que o pai traduz de acordo com o que quer que os filhos entendam. O pai chega a parar o carro na berma da estrada, a caminho de casa, para retirar e deitar para um contentor do lixo os rótulos com a marca das garrafas de água que tinha comprado!
O surrealismo e a demência são tão gritantes, que há cenas em que uma de duas emoções nos aflora: rir perante tamanha ignorância ou chorar por monstruosa insensatez... A curiosidade própria da juventude acaba por ser a chama incendiária desta trama. Mesmo privados e desconhecedores do mundo, estes jovens são confrontados com o seu próprio desenvolvimento e acabam por deixar explodir reacções, adversas ao que seria um processo normal de crescimento e maturação.
Todo o filme gravita em torno de uma ideia de insanidade mental no seu estado bruto. O filme não é reflexivo, mas perante os factos e, sobretudo, os resultados, faz detonar um sentimento de revolta contra a imoralidade de prender a vida de um ser humano, privando-o do conhecimento. Não consigo deixar de pensar na chapada psicológica que senti ao assistir a esta história. O que será uma boa educação? Aquela que nos permite correr livremente sobre os campos, sabendo que iremos ser confrontados com perigos iminentes, mas por cada arranhão, por cada nódoa negra, ganhamos um pouco mais de identidade, aquela que nos permite ocupar o lugar que merecemos neste mundo.
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