Um nome nada diz de uma pessoa, mas é pelo nome que conhecemos a história do homem que via nascer o sol todas as manhãs sentado num banco de pedra, com a praia e o mar como cenário.
Lourenço Cavalcanti, filho de pai italiano e mãe brasileira, uma junção oriunda das emigrações italianas, que encontravam no Brasil uma fonte de oportunidades para saírem das suas misérias. Fortuna, se é que houve alguma, foi apenas a do amor encontrado na fazenda. E o filho que, em tenra idade, já sabia que a vida era uma fonte de exigências e amarguras.
Lourenço foi sempre uma criança curiosa, que aprendia com facilidade, falava pelos cotovelos, atropelando-se nas ideias que lhe afloravam aos pensamentos. Os pais ensinaram-lhe a comportar-se como um menino e pediam-lhe que imitasse os filhos dos donos da casa grande. Estes tinham dois filhos, Luciana e Marcos. Luciana passava horas deitada na relva em frente à casa, enquanto Lourenço lhe lia histórias.
Certo dia, Luciana pediu a Lourenço que a ensinasse a pescar, pois sabia que ele o fazia muitas vezes com o irmão dela. Lourenço, entusiasmado, aceitou prontamente a ideia e combinou encontrar-se com ela junto ao lago, na manhã seguinte. Luciana pediu à mãe de Lourenço, servente na casa, para lhes preparar o farnel. Este encontro do lago marcou as suas vidas de forma inequívoca. O sol iluminou de um rasgo o rosto deslumbrante de Luciana, uma tez branca, polvilhada de pequenas sardas e uns olhos verdes flamejantes. Lourenço admirou-lhe a beleza pela primeira vez e, também pela primeira vez, sentiu um aperto profundo no peito que quase o sufocou, tal era a intensidade. Luciana também o viu dessa forma reveladora e sorriu perante o seu ar atarantado. Os passeios repetiram-se nos dias, meses e anos seguintes.
Quando eram adolescentes os pais de ambos começaram a desconfiar desta amizade tão próxima e constante e proibiram os seus encontros, na tentativa de evitar que algo mais os unisse. Sofreram. Lourenço pediu aos pais que o deixassem ir para o exército, queria ser militar. Os pais de Luciana apoiaram esta decisão, com o intuito de o ver longe da filha.
Lourenço estudou muito, esforçou-se, empenhou-se, dedicou-se. No exército conheceu a vida ainda mais exigente e amarga, mas também a força de vontade, a coragem e a luta pelos ideais de dignidade e justiça humana. Aprendeu a ser duro, forte e humilde. A sua postura era exemplar, progrediu depressa e tornou-se um homem muito interessante pela simpatia e justiça, que nunca deixaram de o caracterizar.
Não voltou a encontrar o amor. Trocou cartas com os pais até à morte destes. Ninguém falava sobre a Luciana. Ela também nunca o procurou.
Os anos foram passando e Lourenço concentrava os seus dias no trabalho. Quando a velhice chegou apanhou-o desprevenido. Agora tinha todo o tempo do mundo, para quê, pensava.
Um dia, enquanto dava um passeio pela praia, encontrou uma criança, que o desafiou para uma corrida. As pernas cansadas já não lhe permitiam grandes aventuras, mas aquela criança devolveu-lhe a vontade de viver. Nesse mesmo dia foi ao banco, verificou o dinheiro que tinha poupado em tantos anos de trabalho e saiu para a rua com um sorriso confiante, de quem recupera uma alegria há muito esquecida. Foi a um lar de acolhimento e pediu para ser monitor de crianças, voluntariamente. As crianças adoravam-no, ele lia-lhes histórias, brincava com elas, levava-as a passear. Os dias ganharam uma nova dinâmica. Lourenço, com o seu cabelo branco, a barba longa, os olhos azuis vivos e a pele marcada pelo sol, era o avozinho que estas crianças nunca tinham tido.
Todas as manhãs, antes de ir para o lar, passava pela praia. O nascer do sol dava-lhe a confiança de que necessitava para enfrentar um novo dia. A missão dele era servir. Que missão tão nobre, tão digna. Servir é uma forma de amar, talvez a mais bela e delicada de todas. Foi assim que Lourenço Cavalcanti se tornou conhecido entre nós, o velhinho simpático, que caminhava lentamente, cedendo à idade, pelas ruas que mediavam a infância e a sabedoria.
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