Solidariedade ou caridade?


Pergunto-me inúmeras vezes qual será a barreira invisível que separa conceitos, aparentemente, correlacionados. Invariavelmente, encontro uma justificação pouco plausível, subjectiva quanto baste, fruto da opinião mais ou menos fundamentada dos que ousam discorrer acerca de conteúdos significativos.
A solidariedade surge-nos, assim, como um movimento há muito difundido entre os povos, permitindo a inter-ajuda e a partilha como meios de sociabilidade. É uma pretensa social, dos que vivem, mesmo que isolados nas suas caixas habitacionais, em comunidade. O bem comum é o epicentro desta temática. A salvaguarda do interesse colectivo implica, necessariamente, este contexto de ser solidário. No entanto, solidariedade não será mais do que um amplo significado da caridade expressa, sobretudo, pelas fontes religiosas?
Há séculos que a Igreja Católica advoga a caridade. Esta é vista por muitos como uma acto de generosidade, uma bondade expressiva que servirá de garantia para um lugarzinho no céu. Os registos históricos revelam-nos, contudo, que a caridade, por si só, pode ser um acto de segunda instância, uma fraqueza do espírito, incapaz de gestos mais nobres, como os propostos pela solidariedade.
A caridade poderá ser uma ratoeira face aos ímpetos produzidos pela ambição dos homens. Surge como moeda de troca. Um favor que paga outro, uma mão que lava a outra, deixando de lado a nossa responsabilidade e comprometimento com os factos. Este é então um propósito nefasto, sem conteúdo, com ausência de fundamento e sustentabilidade duvidosa.
Ser solidário surge-nos, assim, como uma rajada de vento que abre as janelas da criatividade humana de par em par. Por elas, deixa entrar toda a verdadeira essência da humanidade, aquela que nos faz dignos da nossa condição existencial. Seres dignos de amor e afecto, com responsabilidades humanas e sociais. Sem solidariedade não há futuro. Este baseia-se na essência social que o alimenta.
Será o homem capaz de sair da esfera do seu egoísmo para abraçar este desafio primordial de dar aos outros o que de melhor tem: a sua sociabilidade e a partilha do bem comum?
Embora o mundo esteja, de momento, a efectuar uma dura prova de carácter , testando a sua resistência e, principalmente, os seus limites, não sei se algum dia estaremos prontos para a nova consciencialização humana, que tornará o homem um ser responsável e íntegro, capaz de abraçar os desafios de uma era de solidariedade consciente e partilhada.
Se cada um de nós for uma pedra desta grande obra, eu já fui lançada. Quem estará disposto a seguir o meu exemplo?

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